“Já sei o valor da entrada e da parcela do banco, mas o que mais eu pago enquanto o prédio está sendo construído? Tem correção pelo INCC? Tem parcela intermediária?”Pergunta enviada por uma compradora de imóvel MCMV na Zona Leste, outubro de 2026
Essa é a dúvida mais inteligente de quem está prestes a comprar na planta. O valor do imóvel e a prestação do financiamento aparecem em qualquer anúncio. O que define se a compra fica leve ou apertada é o que acontece nos 24 a 36 meses de obra. Com o mapa certo, você monta um orçamento que cabe no mês e chega às chaves com tranquilidade.
Os encargos da fase de obra
Na compra na planta pelo Minha Casa Minha Vida, os pagamentos da fase de obra se dividem entre a construtora (a entrada) e a Caixa (os encargos do financiamento já contratado).
Isso acontece porque, na maioria dos lançamentos do programa, o financiamento é assinado logo no início, no chamado crédito associativo. A Caixa libera o dinheiro à construtora conforme a obra avança, e você paga os encargos sobre o valor já liberado. A entrada, que é a diferença entre o preço do imóvel e o que o banco financia, fica parcelada direto com a construtora.
| Encargo | Quem recebe | Quando | Como varia |
|---|---|---|---|
| Parcelas da entrada (sinal e mensais) | Construtora | Da assinatura até perto das chaves | Corrigidas pelo INCC, conforme o contrato |
| Parcelas de reforço ou intermediárias | Construtora | Nas datas combinadas | Valor e datas definidos na proposta |
| Juros de obra (taxa de evolução) | Caixa | Mensal, durante a construção | Cresce conforme a obra avança |
| Seguros (MIP e DFI) e tarifa de administração | Caixa | Junto com o encargo mensal | Conforme o contrato |
| ITBI e registro do contrato | Prefeitura e cartório | Na assinatura | Muitos lançamentos oferecem por conta da construtora |
Fontes: Caixa, cartilha de financiamento na fase de obras; contratos padrão de compra na planta com crédito associativo. Consulta em 22/10/2026. As condições exatas estão na proposta e no contrato de cada empreendimento.
Parcelas da entrada e correção pelo INCC
A entrada parcelada com a construtora costuma ser corrigida mensalmente pelo INCC, o índice da Fundação Getulio Vargas que mede a variação do custo da construção.
Na prática, o saldo que ainda falta pagar da entrada é atualizado todo mês pela variação do índice. Se a sua parcela é de R$ 800 hoje, ela tende a subir um pouco ao longo da obra, acompanhando o INCC. Nos 12 meses encerrados em setembro de 2026, o índice acumulou por volta de 6,6%, segundo as séries que replicam os dados da FGV. É uma correção gradual, mas precisa estar no planejamento.
Depois do habite-se, muitos contratos trocam o INCC por outro índice, como o IGP-M ou o IPCA, para o saldo que ainda restar com a construtora. Expliquei em detalhes como o índice funciona, com exemplo de cálculo, no guia O que é INCC e como ele corrige as parcelas do imóvel na planta.
O tamanho da entrada depende do valor do imóvel, do quanto a Caixa financia para a sua renda, do subsídio e do FGTS. Se quiser entender cada peça, veja o guia de entrada no Minha Casa Minha Vida e o de uso do FGTS.
Juros de obra pago à Caixa
O juros de obra é o encargo mensal que você paga à Caixa enquanto o prédio é construído, calculado só sobre a parte do financiamento já liberada à construtora.
No começo da obra ele é baixo, porque pouco dinheiro foi liberado. Conforme a construção avança, o valor sobe, e chega perto de uma prestação cheia no fim. Esse encargo não reduz a dívida: a amortização começa depois da conclusão da obra. Em compensação, ele mostra que o seu crédito já está contratado, com taxa e condições travadas no contrato.
Fiz um guia só sobre isso, com a fórmula da Caixa e uma tabela de exemplo: juros de obra (taxa de evolução): o que é e quanto custa.
Parcelas intermediárias e reforços
Parcelas intermediárias, também chamadas de reforços ou balões, são pagamentos maiores em datas combinadas, que ajudam a completar a entrada sem pesar a parcela do mês.
Elas são uma ferramenta de flexibilidade. Em vez de dividir toda a entrada em mensais altas, você concentra uma parte em datas em que costuma ter um dinheiro extra: o 13º salário, as férias, a restituição do Imposto de Renda ou a liberação de um FGTS. Algumas construtoras também aceitam um reforço maior na entrega das chaves.
O desenho do fluxo é negociado na proposta, dentro da condição comercial de cada construtora. Como eu atendo várias construtoras, comparo esses fluxos lado a lado e monto o que cabe no seu orçamento, sem apertar o mês.
ITBI, registro e taxas do financiamento
Na assinatura do financiamento entram o ITBI, imposto municipal sobre a transmissão, e o registro do contrato em cartório, além de tarifas do banco.
Em muitos lançamentos do Minha Casa Minha Vida, a construtora assume o ITBI e o registro como condição de lançamento, normalmente para compras financiadas pela Caixa. Vale confirmar na proposta, porque a regra muda de empreendimento para empreendimento. Em São Paulo, o ITBI tem regras próprias para a parte financiada pelo Sistema Financeiro da Habitação, que eu explico no guia ITBI, escritura e registro no financiamento em São Paulo.
Depois do habite-se, existe ainda o registro da individualização da matrícula, que em geral fica a cargo do comprador. É um custo pequeno perto do imóvel, mas vale reservar.
O que começa só depois das chaves
Condomínio, IPTU da sua unidade e a prestação que amortiza a dívida começam depois da entrega das chaves.
Isso significa que, durante a obra, você ainda não paga condomínio e, se mora de aluguel, continua com o aluguel. Por isso o planejamento olha para o fim da obra: é o momento em que o juros de obra está alto e o aluguel ainda existe. Quando as chaves saem, o aluguel acaba e entra a prestação, que no Minha Casa Minha Vida costuma caber no mesmo espaço do orçamento.
Exemplo de orçamento mensal na obra
Um orçamento típico começa com a parcela da entrada quase sozinha e termina com a entrada somada a um juros de obra próximo da prestação.
| Fase da obra | Parcela da entrada (com INCC) | Juros de obra (aprox.) | Total no mês |
|---|---|---|---|
| Início (10%) | R$ 800 | R$ 150 | R$ 950 |
| Meio (50%) | R$ 825 | R$ 700 | R$ 1.525 |
| Fim (90%) | R$ 850 | R$ 1.250 | R$ 2.100 |
Exemplo ilustrativo: financiamento de R$ 220.000 a cerca de 7,5% ao ano, entrada parcelada em R$ 800 com correção pelo INCC, sem considerar TR, seguros, tarifa e reforços. Os valores reais dependem da sua faixa, do contrato e do cronograma da obra. Elaboração própria, 22/10/2026.
Repare que o pico acontece no fim. Um reforço programado para essa fase, ou a antecipação de parcelas no começo, deixa o caminho bem mais suave.
Se a obra atrasar: o que diz o STJ
Se a construtora passar do prazo de entrega, incluída a tolerância do contrato, o Superior Tribunal de Justiça considera ilícito cobrar do comprador o juros de obra ou encargo equivalente depois desse prazo.
No julgamento do Tema Repetitivo 996 (REsp 1.729.593/SP, em 11/09/2019), específico para contratos do Minha Casa Minha Vida, o STJ também definiu que, no atraso, a correção do saldo pelo índice setorial da construção deixa de valer e passa a ser feita pelo IPCA, salvo se o IPCA for mais caro para o comprador. E presumiu o prejuízo do comprador, com indenização equivalente ao aluguel de um imóvel parecido até a entrega.
Na prática, o juros de obra também funciona como um incentivo para a obra andar no prazo. Antes de assinar, eu reviso com você o prazo de entrega e a tolerância que constam no contrato. Para entender o que olhar no memorial, veja como conferir o memorial de incorporação.
Cuidados que deixam a compra mais tranquila
Com quatro cuidados simples, os encargos da obra viram um plano previsível.
- Peça o fluxo completo por escrito: sinal, mensais, reforços, chaves e o saldo financiado, com as datas.
- Reserve uma folga para a correção: considere o INCC no planejamento da entrada, principalmente em obras mais longas.
- Programe reforços nas datas certas: 13º, férias e restituição do IR são aliados naturais da entrada.
- Mantenha o CPF e a renda organizados: a Caixa analisa o seu crédito antes de liberar o financiamento. Como sou contador além de corretor, confiro isso com você antes, inclusive acordos em andamento e comprovação de renda de autônomo.
Empreendimentos MCMV que podem interessar
Lançamentos que acompanho em São Paulo, com valores publicados na consulta de 02/10/2026. A unidade compatível com o seu perfil depende da sua renda e da análise de crédito.
Enquadramento no MCMV e aprovação de crédito dependem da análise da instituição financeira. Preços e disponibilidade sujeitos a alteração conforme tabela da construtora, sem aviso. Também acompanho o Lyon Penha, na Penha, a partir de R$ 243.808, o Brisas da Praça Patriarca e outros lançamentos em Minha Casa Minha Vida em São Paulo.
Simule a entrada e os encargos da obra
Preencha em 30 segundos. A mensagem abre pronta no WhatsApp e eu respondo com uma pré-análise gratuita. A aprovação final é sempre do banco.
Perguntas frequentes
Quais encargos eu pago durante a obra no Minha Casa Minha Vida?
Você paga as parcelas da entrada à construtora, normalmente corrigidas pelo INCC, o juros de obra à Caixa sobre o valor já liberado, seguros e tarifa de administração junto com esse encargo e, se estiverem no contrato, parcelas de reforço. Condomínio, IPTU e amortização começam depois das chaves.
A entrada do imóvel na planta é corrigida pelo INCC?
Sim, na maioria dos contratos. O saldo da entrada parcelada com a construtora é atualizado mensalmente pelo INCC até o habite-se ou as chaves. Depois, muitos contratos passam a usar o IGP-M ou o IPCA no saldo que restar.
O financiamento da Caixa também é corrigido pelo INCC?
Não. O INCC corrige a parte paga à construtora. O financiamento do Minha Casa Minha Vida na Caixa tem juros definidos pela faixa do programa e atualização pela TR, conforme o contrato.
Tem parcela intermediária no Minha Casa Minha Vida?
Pode ter. Parcelas intermediárias ou de reforço são combinadas na proposta, conforme a condição comercial de cada construtora. Elas ajudam a completar a entrada usando 13º, férias ou restituição do IR, sem pesar a parcela do mês.
Quando começo a pagar condomínio?
O condomínio começa com a entrega das chaves e a instalação do condomínio. Durante a obra, os pagamentos são a entrada, o juros de obra e os encargos que vêm com ele.
Quando começo a amortizar a dívida do financiamento?
A amortização começa depois da conclusão da obra, quando entra a prestação. Durante a construção, o juros de obra cobre juros e atualização sobre o valor já liberado à construtora.
E se a obra atrasar, continuo pagando juros de obra?
Sim, até o prazo de entrega com a tolerância do contrato. Depois disso, o STJ, no Tema Repetitivo 996, considera ilícito cobrar do comprador juros de obra ou encargo equivalente, e manda trocar o índice setorial pelo IPCA no período de atraso, salvo se o IPCA for mais caro.
Dá para usar o FGTS para diminuir os encargos da obra?
Sim, o FGTS pode entrar na entrada, desde que você cumpra as regras do Fundo, o que reduz o valor parcelado com a construtora e, consequentemente, o efeito da correção pelo INCC.
Fontes oficiais consultadas
- Caixa — Entenda como funciona o seu financiamento ao construir ou comprar um imóvel em construção (cartilha de juros na fase de obras)
- CBIC — STJ define regras sobre atraso na entrega de Minha Casa Minha Vida (Tema Repetitivo 996, 11/09/2019)
- STJ — Tema Repetitivo 996 (REsp 1.729.593/SP), na página de precedentes do TJDFT
- FGV IBRE — Índice Nacional de Custo da Construção (INCC)
- Planalto — Lei nº 13.786/2018 (distrato e prazos na incorporação imobiliária)
Conteúdo informativo. Não substitui a leitura do seu contrato, a análise da instituição financeira nem orientação jurídica ou contábil individual. Regras e condições sujeitas a alteração.